terça-feira, 19 de maio de 2009

Goldilocks Enigma




Comprei um livro quando estava a viver na Holanda chamado "Goldilocks Enigma" de Paul Davies.

Creio que toda a gente já ouviu falar na história da menina que chega a uma casa onde vivem três ursos: pai, mãe e filho. Vê três sopas em cima da mesa. Prova a primeira e vê que está muito quente, prova então a segunda e vê que está muito fria. Finalmente verifica que a terceira tem a temperatura ideal. Após a refeição vai-se deitar numa das camas. A primeira é muito grande. A segunda muito pequena, sendo que a terceira ajusta-se perfeitamente ao seu tamanho...e por aí adiante...Esta história é conhecida como "Goldilocks story" porque a menina tinha uns cabelos louros encaracolados.

O livro de Paul Davies fala sobre as condições ideais para o aparecimento de vida no nosso planeta. Tal como a fábula, o nosso planeta nem é muito frio nem muito quente para nós podermos habitar nele. Só que o livro não fala apenas na temperatura ideal mas sim nas outras tantas variáveis que se ajustam mesmo a jeito não só para o aparecimento de Vida, mas também para a formação do Universo.

Se a força gravítica fosse diferente, ou simplesmente o tamanho da nossa galáxia fosse diferente, ou a constante de Plank fosse ligeiramente diferente, então muito provavelmente não estaria agora a escrever estas palavras.

Basta pensarem que se a Terra demorasse mais do que 24 horas a completar uma rotação, então as alterações de luminosidade e temperatura seriam de magnitudes diferentes não favorecendo o aparecimento de vida. Os dias seriam mais longos e quentes e as noites mais frias... Reparem que Vénus e Marte não têm vida e são os nossos vizinhos mais próximos. Imaginem se a gente estivesse ali na posição deles a fazer a translação.

Imaginem-vos assim no papel de Deus em que se encontram em frente de uma máquina cheia de manivelas. Cada manivela representa uma constante. Tipo temperatura, gravidade, forças nucleares, posições planetárias, tamanho de galáxias, distância inter-intra-atómica. O que aconteceria se girassem um milimetro em apenas uma dessas manivelas era que toda a vida seria destruída. É como quando tentam sintonizar uma estação de rádio manualmente rodando aquela rodinha de lado. Um bocadinho para a direita e já se apanha estática, um bocadinho para a esquerda e já nem se consegue ouvir a música... Nós, como Planeta Terra e Vida, estamos mesmo na frequência correcta. Sem tirar nem pôr.

Assim, Paul Davies sugere um Universo que é nosso amigo. Mas também sugere que somos apenas um dos Universos nesse oceano a que os cosmologistas chamam de Multiverse. Isto é, uma série de Universos paralelos e vizinhos entre si, com ou sem ligações entre si. Deste modo Davies sugere que nós somos um dos Universos em que tudo se combinou de modo a que o surgimento de vida, planetas e estrelas fosse possível sendo que nos Universos vizinhos as condições não fossem favoráveis à Vida, talvez surgindo em vez dela outro tipo de "vida". Mas nada disto se pode provar neste momento. São teorias.

O interessante é jogar aqui um bocado com o Paradoxo de Fermi e com o conceito de Desígnio Inteligente. Fermi foi um gajo que estudava física e assim e perguntou uma vez alguém que comprava laranjas no mercado: "Se o Universo têm biliões de galáxias, cada uma com biliões de estrelas que por sua vez possuém milhares de planetas, então assumimos que existe uma grande probabilidade de existir Vida algures por esse Universo em alguma abundância. Certo?"

O gajo que tava a comprar laranjas olhou para o vendedor com cara de parvo e acenou a cabeça indicando uma resposta positiva, ao que Fermi continuou: "Então se a probabilidade de existir vida é elevada, porque razão ainda não detectamos nenhum sinal evidente? Tipo imagem, satélites, visitas, transmissões por rádio, ou qualquer outro tipo de prova???"
Nem o gajo das laranjas nem o vendedor tinham resposta para o que viria a ser designado como o Paradoxo de Fermi.

Só que entretanto aparece um senhor chamado Frank Drake que mostra uma equação que designa a probabilidade de encontrarmos uma civilização na Via Láctea na qual possamos estabelecer contacto. Essa era a Equação de Drake:

N = R^{\ast} \times f_p \times n_e \times f_{\ell} \times f_i \times f_c \times L \!
No entao a ligação que quero fazer com o Desígnio Inteligente é que fica difícil acreditar que o mero acaso na atribuição de valores energéticos e físico-químicos de diversas constanstes que governam o nosso Universo tornou possível tudo isto.

Isaac Newton ao contemplar a complexidade e magnitude do Universo e das Leis que o regem afirmou que o Universo era como um relógio altamente complicado e delicado e que seria preciso a existência de um Ser Superior, uma Entidade Criadora para montar esse relógio. Parece que neste relógio perfeito em que todas as engrenagens parecem estar perfeitamente colocadas com precisão suiça teve que de facto haver um "relojoeiro".

No entanto, render-me à história de que o Universo é complexo como um delicado relógio e que para explicar a sua complexidade deve haver a existência divina encarnada como um relojoeiro, seria fácil demais. Seria preguiça mental. Acredito na Evolução e acredito que na Selecção Natural. É das mais belas teorias que já tive conhecimento. Explica que no meio desta complexidade, no meio do acaso, pode surgir vida... Aceito que o Universo onde habitamos é complexo e que as Leis da Física são tão belas e perfeitas que parecem ter tido a intervenção de um "relojoeiro". Só que o que me falta dizer já Richard Dawkins o disse: O relojoeiro era cego.

No entanto e após tanto palavreado fica a nota de que é interessante ver que estamos aqui porque uma infinidade de constanstes alinharam-se e combinaram entre si em serem nossas amigas... Parece que há um desígnio por trás, um propósito. Mas no fundo há tentativa-erro durante biliões de anos e nada mais...



1 Comentarios:

JB disse...

...a tua ultima frase resume tudo: Bingo!!

...na verdade, por mais teorias que possam aparecer, neste momento, apenas consigo perceber uma coisa, depois de ter 'roçado' as novas teorias do 'Caos'...

Teoricamente tudo se assemelha a uma baralho de cartas...imagina o universo como se fosse um enorme baralho de cartas com biliões e biliões de cartas com um expoente de biliões...

Se estivessemos constantemente, por um tempo indetermindado, a baralhar um baralho normal, as cartas desse baralho passariam por inumeras combinações. Algumas dessas combinações seriam interessantes, tipo, a sequência de rei, dama e valete (uma especie de seres inteligentes)...outras nada seriam...mas ao fim de um determinado tempo atingiria-se um equilibrio total, em que, todo o baralho ficaria perfeitamente ordenado...

...eu diria que o nosso universo é um baralho de cartas cujo principio, ou segundo algumas teorias, o reinicio, seria uma ordenação perfeita das cartas desse baralho, e o fim atingiria-se quando, após inumeras combinações, se chegasse à ultima baralhação antes de uma nova ordenação perfeita...

e isto se repetiria indefinidamente, umas vezes criando 'universos' longos e velhos, e noutra alturas, universos verdadeiramente turbulentos e rapidos... e repara... esta imagem enquadra-se em todas as novas teorias actuais sobre o universo, desde a teoria do universo ciclico formulada por Paul J. Steinhardt e Neil Turok, passando pela teoria do Big Bounce de Martin Bojowald, sem esquecer a teoria do multiverso, bastando para isso imaginar não um, mas vários baralhos de cartas a serem baralhados... em qualquer um desses baralhos a mesma 'historia' pode-se repetir inumeras vezes...

...Lê o Chaos...