sexta-feira, 10 de julho de 2009

Moral Religiosa?



De onde vêm os nossos valores morais?

Ontem tive uma acesa discussão com alguém que afirmava que a Religião ajudava a encontrar ou a definir os valores morais que regem uma pessoa.
Eu discordava.

Em primeiro lugar deixem-me reforçar a expressão ajudar a que a minha amiga se referia. Ela não dizia que era obrigatório ser-se religioso para ter os valores morais certos. Embora haja uma pequena e vital diferença entre ambos os conceitos, devo dizer que ajudar não deixa de afirmar que um indivíduo sem ser religioso não tem acesso ou não consegue adquirir os valores morais na sua totalidade e perfeição. Parece que sem religião nós apenas conseguimos obter uma percentagem (inferior a 100%) no que diz respeito a valores morais (caso os conseguíssemos quantificar).

Eu dizia que depende do indivíduo e da cultura onde se encontra inserido. Não é necessário ser-se religioso para se ser bom. Nos EUA, a percentagem de cristãos nas prisões é superior à percentagem de presos ateístas. Não quer dizer nada, mas é só um dado para termos presente. O mesmo acontece com a taxa de divórcios entre cristãos e ateístas. Parece hipocrisia termos mais cristãos a divorciarem-se do que ateístas.

Mas reafirmo que estes dados não nos ajudam a esclarecer a questão se a Religião assume um papel vital na formação do indivíduo na perspectiva moral.



Lembro-me de ter lido um capítulo interessante no livro de Richard Dawkins - A desilusão de Deus (The God Delusion) - em que incidia precisamente nesta questão. Segundo ele, uma sociedade não necessita da religião para ser boa.

A nossa moralidade tem raiz numa explicação Darwiniana (Charles Darwin, i.e. evolucionista) no qual genes altruístas, seleccionados através do processo da Selecção Natural conferem empatia natural às pessoas. A meu ver, se o ser humano fosse um organismo mau e cruel, que não respondesse "naturalmente" a outros indivíduos com calma e racionalidade, então nunca teríamos evoluído em termos de sociedade. Lembrem-se que o aparecimento da Linguagem entre seres humanos é um dos pilares mais importantes (senão o mais importante) que nos conferiu a vantagem evolutiva em relação aos outros animais e que permitiu diversos indivíduos agregarem-se em pequenos grupos sociais e deste modo evoluírem nas sociedades que vemos hoje em dia. Admito que a religião teve um papel importante na construção de sociedades, mas esse papel desempenhou funções negativas e positivas. Toda a gente se lembra das Cruzadas, das Guerras Santas e mais não sei quê. Embora todas as guerras que tenham um pretexto religioso, hoje em dia é importante analisar o que está por trás dos atentados terroristas.

As Torres que cairam nos EUA, as bombas do Metro de Londres e as bombas de Madrid aparentam ter uma causa religiosa em que uns (islâmicos extremistas) não aceitam a religião de outros (cristã) e por isso "matam os infieis". Mas a verdade por trás destes atentados é sublime e revela-se quando analisamos o papel imperialista que a Europa e EUA tiveram e ainda têm naqueles países árabes. Quando "NÓS" ocupamos ou apoiamos outros na ocupação de um país estrangeiro (seja ele árabe ou africano), é comum esses povos retaliarem com as forças que têm e que se traduzem em atentados terroristas. Uma vez que esses países ocupados não podem fazer frente aos exércitos dos países grandes (Europa e EUA), a única maneira de fazer passar a sua mensagem é através de atentados terroristas baratos e que atingam o maior número de vítimas. De um ponto de vista frio, um atentado terrorista é a forma mais poderosa de se fazer sentir enquanto povo oprimido. Um povo oprimido por outro vê um atentado como a única maneira de roubar o bem mais precioso da outra sociedade - a sua liberdade.

Por isso hoje em dia vivemos em terror quando o metro pára de repente, ou quando andamos de avião, ou simplesmente enquanto caminhamos em Israel ou Iraque.

Reparem que ninguém atacou os EUA quando eles entraram pelo Iraque a dentro. Mas agora vêem-se pequenos atentados todos os dias, roubando a vida de tropas e civis todos os dias. A invasão ao Iraque fez-se num mês, mas a guerra no Iraque ainda dura até aos dias de hoje.

Vejamos o caso dos Palestinianos. É sabido que os Israelitas vivem sob um novo lema, após a 2a Guerra Mundial: "Nunca mais seremos oprimidos". Por isso é que a cultura em Israel instiga a uma mentalidade de defesa, de força militar, de poder balístico. É que temos que ver que os judeus foram perseguidos e oprimidos durante mais de 2000 anos. Principalmente durante a 2a Guerra Mundial muita gente se questionou como é que os judeus se deixaram dominar tão facilmente sem oferecer resistência aos Nazis. É que a mentalidade deles na altura era passiva. Mas após o Holocausto criaram uma mentalidade de força e defesa. Agora causam o mesmo terror aos outros. Os palestinianos que viram as suas casas a serem ocupadas do dia para a noite não têm financiamento, nem apoio (dos EUA, p.e.) para sustentar um exército capaz de fazer frente ao poderio israelita. Deste modo encontram os atentados terroristas a única forma poderosa de fazer passar a sua mensagem, de se fazerem ouvir, de se fazerem sentir aos olhos do mundo...

Mas os media e o senso-comum (erróneo e superficial) faz-nos ver que as bombas têm uma natureza religiosa, quando no fundo é o que o oprimido pode dar como retaliação ao povo ocupador causando vítimas inocentes. É claro que temos que ver sempre tudo num contexto específico e nunca geral. Há que analisar cada caso.

Mas no caso da Palestina (por exemplo) os atentados não são de natureza religiosa (pelo menos não totalmente). Os atentados são a resposta à ocupação indevida e injusta dos judeus. Os atentados são as armas que os palestinianos têm para criarem o medo e terror no seio da comunidade israelita.

Não podemos ver a Religião como a razão para estas guerras existirem. Se não existisse religião, as guerras continuariam a existir (pelo menos grande parte delas) e seria escolhida outra razão como a raça (como é tão frequente ver-se) ou outras razões mais absurdas como a cor do cabelo, a língua, a cor dos olhos e por aí adiante... O Poder é sempre a força motriz de uma guerra. É existir sempre alguém que quer dominar outro povo por uma razão subjacente qualquer, como matéria-prima ou uma razão de natureza geo-política.

Então voltamos ao início: A religião confere-nos valores morais positivos mas também negativos. Assim sendo, será vital utilizar a religião como caminho para atingir um estado moral? Eu acho que não. Indo à ideia de Dawkins, as sociedades atravessam uma moral Zeitgeist. O conceito de Zeitgeist refere-se literalmente ao "Espírito da Época" ou "Sinal dos Tempos" e pode ser definido como o conjunto de clima intelectual e cultural do mundo, numa dada época. Como exemplo podemos dar o tempo em que as mulheres não votavam (porque era uma característica da época) ou a segregação dos negros nos EUA. A beleza do Zeitgeist é que evolui com o passar do tempo. Por isso hoje em dia é descriminação sexual não permitir as mulheres de votarem e descriminação racial não conferirem direitos universais aos negros nos EUA.



À medida que o Zeitgeist evolui, o conceito de moral também evolui, influenciando assim a maneira como os líderes religiosos interpretam as suas Escrituras Sagradas. Assim temos certas escrituras na Bíblia em que se elogia e abençoa aquele que castiga os escravos e as suas próprias mulheres. Naquela altura era correcto proceder-se dessa maneira. Hoje já não é assim porque a mentalidade mudou, ou melhor, evoluiu. E com essa evolução os líderes religiosos têm que adaptar a interpretação das Escrituras para manterem os seus fieis. Assim vão riscando as partes da Bíblia (ou Corão, ou Torá) que lhes convém e sublinhando outras que se adaptam aos tempos de hoje. Mas é devidamente a este processo de riscar e sublinhar que prova o meu ponto de vista que a Religião não é o caminho para adquirir os valores morais que impulsionam a nossa sociedade. É precisamente pelo facto da sociedade evoluir que eu acredito que nascemos com esse gene moral social.

Reparem que me refiro a uma moral em termos de sociedade, mas não se esqueçam que o ser humano é um animal acima de tudo. Por dentro deste complexo reptiliano onde habitam as nossas emoções mais primitivas como o medo e a raiva somos capazes de comer o vizinho para sobrevivermos à fome. Numa sociedade vemos toda a gente a pisarem-se uns aos outros para evoluirem na carreira, para ganhar dinheiro, etc.

No entanto os valores morais a que me refiro são de natureza social. Em termos de sociedade, temos que ter regras. Regras essas que têm que ter uma natureza benéfica (e não prejudicial) para todos os que habitam nela. Necessitamos dessas regras (Leis) para podermos evoluir como um todo. Se andarmos aqui a matar-nos uns aos outros, então não chegamos a lado nenhum. Foi ao estabelecer regras de comportamento que "inibem" o nosso comportamento selvagem, que nos permitiu chegar até à Lua.

E são exactamente essas Leis que para mim não necessitam ter uma natureza religiosa, embora muitas se inspiram nela.

Como referia mais acima, não creio que a Religião tenha efeitos positivos nem negativos. Deixem-me só fazer um pequeno reparo em relação aos efeitos negativos. Fanatismo, racismo, homossexualidade e xenofobia são apenas alguns conceitos que consigo retirar do negativismo religioso. Não vou descrever nenhum em pormenor, porque sei que vocês conseguem perceber o que quero dizer.

De onde vêem os nossos valores morais?

Não sei.
Mas sei que não derivam da Religião.

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