quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Um passo de cada vez...



Em Portugal não existem grandes cursos que dêem algumas saídas profissionais. Hoje em dia o único que quase garante emprego imediato é Medicina. O resto dos cursos apenas oferece um pequeno número de empregos que pode ficar dependente da qualidade do indivíduo ou da qualidade da "cunha" do indivíduo.

Eu estudo Biologia tendo um curso pela Universidade de Aveiro. E durante todos os anos as pessoas perguntavam sempre:

"Então e isso dá para quê? Para professor? Ou para o McDonalds?"

A verdade é que me irritava ter que responder sempre que o meu curso é virado somente para a Investigação. E sim, há desemprego nesta área, forçando as pessoas formadas em Biologia a desempenhar um emprego que não tem nada a ver. A verdade é que as pessoas, e tenho que compreender a sua ignorância, nunca sabiam bem o que era Investigação em Biologia. Sempre tentei demonstrar que os Biólogos são os soldados da Infantaria na Ciência. A nossa formação abrange quase todos os cantos da Ciência começando em Zoologia, passando pela Botânica, Bioquímica, Bio-Informática até acabando na Genética. Mas mesmo assim as pessoas não viam grande potencial financeiro para apostar nessa vida. Estudar moscas e fungos era ser rato de laboratório.

A verdade é que na minha brevíssima e curta experiência como aluno e profissional já tive oportunidade de trabalhar em Genética, trabalhar com fungos (Candida), trabalhar em Cancro (em Itália) e finalmente em Neurociências (em Cambridge).

Até agora nunca tinha visto a minha pesquisa e trabalho a darem algo mais "palpável" do que um simples artigo (não da minha autoria) numa revista científica. Estas pesquisas são sempre vagas, onde se trabalha apenas um aspecto particular de uma área imensa. Imaginem tentarem estudar um livro, mas sem saberem ler ou sem saberem o significado das frases ou das letras. Teriam que começar por estudar uma letra de cada vez e depois juntá-las e formar frases, etc. Até conseguirem ler a primeira página. Mas os primeiros passos iram parecer vagos, sem sentirem aquela sensação de conseguirem alguma coisa de "palpável", de real.

E esse era o sentimento que tinha nestas pesquisas. Muito estudo e trabalho para depois só alguns na área conseguirem compreender os resultados. Não havia ali um alvo específico. A minha vontade era de trabalhar para algo que daria frutos visíveis e que pudesse ajudar o Homem de uma forma mais directa e rápida. Podem dizer que sou uma pessoa impaciente...

E foi o que aconteceu enquanto estive na Universidade de Cambridge durante 9 meses. O estudo era acerca da Regeneração da Espinal Medula em Mamíferos. Eu pensei logo: "Era mesmo isto que eu estava à procura". E embora o processo seja bastante vago e complexo, a verdade é que no fim (ideal e utópico) eu e todos os outros iríamos conseguir ver os resultados. Estes resultados iriam traduzir-se em ver alguém a recuperar a mobilidade, em ver alguém a caminhar de novo, a levantar-se da cama, etc.



Pois bem. É com bastante orgulho que vejo um pelinho minúsculo de um fruto que a nossa pesquisa colheu recentemente.

O Professor James Fawcett, que foi um dos meus orientadores (juntamente com o Prof. Roger Keynes) consegue agora publicar na revista Nature (a mais conceituada revista científica no mundo) um artigo que envolve 0,001% do meu trabalho desenvolvido nestes 9 meses.

Um grupo de investigadores chefiado pelo professor James Fawcett, do Departamento de Neurociência da Universidade de Cambridge (Reino Unido), encontrou forma de os roedores com uma lesão grave na espinha recuperarem parcialmente a sua capacidade de movimentos.

Fawcett e a sua equipa associaram um exercício específico da perna dianteira de roedores com a injecção de uma enzima chamada condroitina, obtendo como resultado um crescimento notável das fibras nervosas dos animais.

-in Diário Digital

Esta é a enzima com que eu trabalhava - Condroitina. O problema desta enzima é que ela provém de uma bactéria e o nosso trabalho tem sido modificá-la bioquimicamente para se adaptar a sistemas em mamíferos. E tem um enorme potencial, embora seja de opinião geral que a "cura" para lesões na medula espinal seja o resultado de um "cocktail" de diversos tratamentos, não só através do uso exclusivo da Condroitina. E embora ainda estejamos muuuuuuuuito longe, a verdade é que estes são os primeiros frutos visíveis, físicos e "palpáveis" de que falava.


Chondroitinase B

É ver uma aplicação directa na nossa pesquisa que me deixa contente e babado. Embora repita que a minha contribuição tenha sido mínima. Não é em 9 meses que se obtêm estes resultados. Isto já vem de tentativa-erro de muitos investigadores e experiências do passado. Mas, nevertheless, é sempre bom ver o vosso trabalho a contribuir para algo de verdadeira utilidade para a sociedade.

Por isso agora aqueles que me perguntarem para que raio é que serve a pesquisa em Biologia e que raio ando eu a fazer na Universidade de Cambridge (para além de escrever no Blog), terei que responder (arrogantemente) que ando à procura de um dia poder dizer a um paciente tetraplégico as famosas palavras de Jesus Cristo:

"Levanta-te e anda."


Toda a notícia aqui no Diário Digital.



Acerca do Professor James Fawcett apenas posso dizer que ele é daquelas pessoas que prende atenção quando entra numa sala. É alto e tem o dom da palavra. Sempre que dá um seminário ou uma palestra, consegue reter atenção do público. Tem uma voz que se projecta e tem aquela imagem de cientista com poder e laços politicos. Por isso não espanta quando vemos que ocupa o lugar de Chairman do Brain Repair Centre em Cambridge. Devo dizer que no início me sentia pequeno quando falava com ele porque parecia que tinha sempre algo de mais importante para fazer do que estar ali a falar comigo. Mas acabámos por ter algumas conversas porreiras e ajudou-me imenso no trabalho. Um senhor que eu acho que tem pequenas semelhanças com esse outro grande cientista de Oxford - Richard Dawkins.



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