domingo, 18 de outubro de 2009

Orson Welles...



"Um filme nunca é realmente bom, a não ser que a câmara seja um olho na mente de um poeta"

George Orson Welles foi assim mesmo - um poeta com uma câmara na mão.

Este homem é para mim um dos mais magníficos e enigmáticos ilustres nomes que a Sétima Arte já deu ao mundo. Não me parece que tenha havido muita gente que se possa colocar no mesmo patamar que ele. Em 2002, mais de 17 anos após a sua morte, foi considerado, pelo British Film Institute, como o melhor Realizador de todos os tempos.



Mas este homem fazia de tudo: pintava, tocava piano, fazia rádio, realizava filmes, era actor de cinema, de teatro, de televisão e ainda tinha tempo para ser um respeitado ilusionista. Era um verdadeiro Leonardo da Vinci da rádio e da representação...

É sem dúvida um homem com uma personalidade maior do que si mesmo. Com uma confiança que transparecia na tela e dotado de uma voz única, conseguiu deixar uma marca bem profunda na história da sétima arte, do teatro e da rádio...



Considerado pelos profissionais (não eu) como o Melhor Realizador de todos os tempos . Teve ainda a honra de aparecer em primeiro lugar no pódio do American Film Institute e British Film Institute com duas das suas obras primas: Citizen Kane e The Third Man respectivamente.

Foi o autor de uma peripécia que ainda se estuda nos livros de sociologia e psicologia. No dia 30 de Outubro de 1938, Orson Welles queria representar, na rádio, a novela "Guerra dos Mundos" de H.G. Wells em que marcianos atacam a Terra. Só que Welles, armado com a sua enorme e profunda voz e com um talento imenso, recriou a obra a imitar uma história real, escolhendo locais reais e representando a narração como uma espécie de boletim noticiário de última hora com testemunhas (actores) reais a fingirem estarem no local da invasão. A recriação foi tão original que espalhou o pânico a nível nacional na América criando uma histeria em massa Muitos ouvintes pensarem mesmo que a Terra estava a ser atacada por marcianos de verdade.



O seu génio também ficou demonstrado pela sua inteligência quando a certa altura, porque chegava sempre atraso à rádio devido ao engarrafamento das ruas de Nova Iorque, descobriu uma falha na Lei americana em que se "podia chamar uma ambulância mesmo sem estar doente". Assim Welles começou a utilizar uma ambulância e pedia para que colocassem as sirenes a tocar para afastar o trânsito e assim conseguir chegar a tempo e horas à rádio.

Em 1941, Orson Welles criou o que viria a ser um dos melhores filmes da história do cinema - Citizen Kane. Este filme é único e visionário. Realizou e protagonizou esta película com grande esplendor. Dura algum tempo e pode ser bastante académico e massudo, mas é como se estivessemos a comer uma longa e pesada refeição onde o objectivo não é comer para ficar cheio, mas para saborear lentamente cada garfada...com tempo...



Citizen Kane é um Lusíadas, é um Mosteiro dos Jerónimos onde é necessário reparar em pequenos detalhes em cada esquina do enorme monumento nacional...No entanto é importante ver o filme com vontade, senão torna-se naquelas excursões escolares aborrecidas em que não vemos nada com a atenção exigida.

Na altura da sua exibição não rendeu muito, tornando-se um filme de culto apenas 2 décadas depois...Hoje é considerada a obra-prima do cinema.



Mas Orson Welles não parou por aqui. Em 1949 viria a realizar e protagonizar um outro filme de culto e também uma grande refeição cheio de gostos e especiarias - The Third Man.
Aqui aparece uma das cenas mais famosas em que a personagem interpretada por Orson Welles, Harry Lime, aparece pela primeira vez (após mais de 1h de filme) numa rua, esboçando o mais famoso sorriso enigmático do cinema.


Reparem nos ângulos da câmara.

Welles era isso mesmo - enigmático. E aqueles três ou 4 segundos de sorriso e olhar enigmáticos a apresentar Orson Welles no filme transmitem a personalidade e génio de Orson Welles.

Devo colocar aqui uma breve nota com um discurso curtinho mas que também ficou famoso em The Third Man.



A ironia do destino fez com que Hollywood não visse o seu génio e não gostasse dos seus grandes e caros projectos. Assim começou lentamente a desligar-se de Welles.

Welles percorreu o mesmo caminho que Marlon Brando no final da sua vida. Foi o eterno rebelde e menino de ouro, mas para o fim da sua carreira começou a ganhar peso e a beber bastante. Dizia-se que o seu jantar normal eram 2 bifes mal passados com um copo de whiskey. Afirmou uma vez:

"O meu médico disse-me para parar com os jantares para 4 pessoas. A não ser que estejam presentes as outras 3 pessoas."

Um verdadeiro revolucionário e visionário, Welles viria a morrer duas horas após ter dado a sua última entrevista com Merv Griffin no dia 10 de Outubro de 1985. Segundo Merv Griffin, Welles disse-lhe com grande honestidade, antes da entrevista, que este podia perguntar o que quisesse sobre tudo o que quisesse. Normalmente Welles nunca falava do seu passado e era bastante reservado.



Perfeccionista, chegou a proibir que a sua grande obra-prima - Citizen Kane - fosse "colorizada". Entendia que o preto e branco eram os "melhores amigos do actor", porque deixavam transparecer mais as expressões e emoções do protagonista porque o público não se distraia com as cores do cenário, das roupas, do cabelo, dos olhos e de tudo o resto...

Escrevo sobre ele porque vi hoje vi um trailer de um filme chamado "Me and Orson Welles". Não sei se é um filme bom ou mau, mas o trailer mostra um Orson Welles digno de si, o que me a querer ver o filme. Só por isso...

E há muito tempo que queria escrever sobre o homem que era maior que a vida...



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