terça-feira, 2 de março de 2010

Cinema Xunga...



Cinema Xunga é um dos melhores blogs de cinema. Muito corrosivo, como eu gosto, e assim com muita sabedoria à mistura. O autor deste blog devia de estar a escrever guiões para ver se metia o cinema português num patamar mais alto. Recomendo a leitura deste seu post.

Creio que a melhor definição do seu blog é aquela que o próprio autor define:

O site nº1 para quem pesquisa por "pintelheira" no Google...

Falo nele porque há dias ele escreveu uma ode ao cinema do antigamente. Pedi-lhe permissão para meter aqui o seu texto na íntegra. Escutem estas palavras sábias...



Ir ao cinema em 2010



"No final da primeira década do século XXI as salas de cinema tradicionais estão extintas. Nos últimos 25 anos o acto de ir ao cinema foi barbaramente desfigurado. De uma experiência quase religiosa, terapia de grupo ou tertúlias de amigos cinéfilos transformou-se numa quase obrigação social, ritual de acasalamento ou simplesmente pelo grãos de milhos rebentados pelo calor e cobertos de sucedâneo de manteiga sintetizado e edulcorantes químicos (que fazem encolher os testículos). A falta de respeito pela arte cinematográfica está igualmente distribuída pelas distribuidoras e pelo público. A lavagem cerebral dos últimos 15 anos levou Portugal a acreditar que só existe um verdadeiro cinema, o americano, e tudo o resto são cultos extremistas de uma estranheza inarrável. Para quem não foi ao cinema nos últimos 10 anos, eu passo a explicar neste modesto artigo que se segue.

Depois de escolhido o filme temos que comprar bilhete. Os complexos de salas têm bilheteiras imensas, cheias de caixas e pessoas que parecem ser funcionários. De repente reparamos que faltam 10 minutos para começar o filme mas respiramos de alívio porque só há 4 pessoas à nossa frente. Começamos a ficar preocupados quando faltam 2 minutos para o filme e só foi atendida uma pessoa. Porque será? Quando eu ia ao cinema Avenida ou ao Tivoli eram sessões com 500 espectadores e despachavam centenas em 15 minutos… Quando chega a nossa vez encaramos com um jovem que deixou recentemente a adolescência mas que ainda se encontra em processo de mudar a voz. As perguntas monocórdicas seguem-se em catadupa hipnótica, como se saídas de um transe ou ritual milenar. “Quanto bilhetes? 2. Tem preferência? Para o meio. Não há. Então dê-me um qualquer. Vai querer pipocas? Não. Com açúcar ou sal? Não quero pipocas. Está interessado por mais 50 cêntimos levar a caixa média de pipocas e a bebida média? Isso é o quê? 3 metros cúbicos de pipocas e um alguidar de coca-cola de pressão. Não estou interessado. Tem cartão Zon? Não. Milénium? Não. Desculpe, pediu com sal ou açucar? Não pedi. Ok, são 385 euros.

Entramos num corredor e a nossa sala é sempre a última. Vamos ouvindo sons a sair das salas. Umas gritam de agonia, noutra ouvimos os espectadores a rir, noutra um cão ladra e ouve-se música heróica. Quanto entramos na sala vazia dirigimo-nos ao nosso lugar. Curiosamente já passam 10 minutos da hora e estão as luzes acesas e não começou a sessão. As luzes apagam. Algumas luzes mantêm-se acesas por motivos legais. Dá um trailer ou teaser rápido a um blockbuster eminente. Depois começa a publicidade.

Os anúncios publicitários em cinema são longos, alguns na ordem dos 2 minutos. Então começa a agonia. Uma publicidade gigantesca a cerveja com jovens a divertirem-se numa discoteca e depois a acordarem depois de uma noite divertida ( e possivelmente sodomita) com música orelhuda de arrepiar pêlo. Depois a publicidade a cola ou a um fast food com estrelas do futebol a fazerem feitos sobre-humanos ou a salvar o planeta nos penalties. Loonga…. Uma da EDP enorme, outra de um banco, telemóveis, um inferno. Quando tudo parece ter acabado vem aquela publicidade da Vodafone em que nos pedem para fechar os olhos para a história ser contada com efeitos sonoros, a imitar esta do barbeiro. Além não ser minimamente imersiva como prometem, dá sempre que vou ao cinema. Vem-me o sabor do almoço à boca…

E com isto passou quase meia hora. Meia hora da minha vida que paguei para assistir e me faz estar muito perto do estado de insanidade mental apenas curável com eletroconvulsoterapia. As luzes apagam finalmente e começa o filme. Um bom plano inicial, cenas de poesia cinematográfica que prometem. Ou prometiam, porque aos 10 minutos começam a chegar as pessoas todas, a encher as cadeiras, a falar, a meter os casacos em cima da minha cadeira, a acabarem as conversas ao telemóvel, a tossir, rir de anedotas que ouviram na rua. O diabo a sete.

Quando aos vinte minutos as coisas acalmam começa a ouvir-se a omnipresente cacofonia das pipocas e das bebidas. O “munch munch crunch crunch” invade-nos o cérebro como um invasão de ratazanas estridentes. Sentimos o cérebro a distender e comprimir e aquelas vozes que já não apareciam há muito tempo começam a sussurrar “Mata-o! Tira essa faca que trazes sempre e trespassa-lhe o fígado.

INTERVALO. Intervalo? Que merda é esta? Intervalo? Por motivos comerciais, agora há intervalo. Para vender mais merdas que me vão enlouquecer nos primeiros 30 minutos da segunda parte.

Segunda parte, na parte mais emocionante um telemóvel toca ao meu lado. Um tipo diz “Agora não posso, estou no cinema. (…) Ai sim? Ela disse isso? (…) A vaca. Mas isso é mentira (…) Pois, eu sei que ela tem fotos. (…) Não era um cavalo era um pónei. E foi para um trabalho na escola (…) Sim, sim, já me consigo sentar. (…)

E foi mais ou menos esta a minha última experiência no cinema. Não sou esquisito, longe disso. Mas há regras básicas implícitas que deixaram de ser respeitadas. A sala de cinema como santuário da sétima arte também já não existe e vendilhões ocuparam o templo. Sou um gajo normal, que aprecia um bom felácio e coça os testículos amiúde, mas caralhos me fodam se a pirataria não parece melhor ideia a cada dia que passa."

1 Comentarios:

Renato disse...

Por outro lado agora é muito mais fácil encontrar aquelas sessões fantásticas em que se contam pelos dedos de uma mão as pessoas que estão a assistir.
Aconteceu-me isso no "In Bruges" (uma recomendação do Walking in Cambridge) em q estávamos 4 pessoas a assistir e mais recentemente a ver o "Lobisomem" em que éramos 5 a assistir (eu e mais 3 colegas e outra pessoa que estava na sala).
Ir ao cinema assim é melhor que o cinema em casa! para ser melhor só com um sofá mais confortável e uma manta.