quinta-feira, 22 de julho de 2010

a sua última viagem...

Quinta-feira, dia 15 de Julho, marco às 2h da manhã uma viagem na TAP para Aveiro para as 6h15 de sexta-feira. Motivo: funeral do meu avô às 11h de sexta-feira.

Sexta-feira, 00h15, saio de casa aqui em Cambridge e dirijo-me para o autocarro que me levará numa viagem de 3h40 para o aeroporto de Luton onde terei que esperar mais 2horas para apanhar o voo. Tinha tudo calculado mentalmente: chegar ao aeroporto do Porto às 8h30, apanhar o metro e depois apanhar o comboio e chegar a Aveiro às 10h45, tempo suficiente para estar a tempo e horas na igreja às 11h.

Sexta-feira, 6h é anunciado que por causa do nevoeiro no Porto, o avião terá que levantar voo às 7h. Penso para mim: "foda-se". Logo de seguida os meus cálculos horários mentais que tinha caem por terra como um saco de batatas atirado do 3º andar. Pego no telemóvel (invenção fantástica) e estabeleço ligação com o meu tio JB que ainda estava a dormir em Aveiro. Começo a explicar-me e ainda antes de terminar já ele estava a marcar hora para me ir buscar directamente ao aeroporto do Porto.

Sexta-feira, 9h50, estou a sair a correr do portão de chegada do avião. Entro no carro do meu tio e rumamos a Aveiro. Chegamos lá às 11h a tempo de ver a Igreja da Misericórdia cheia de amigos e familiares. Momentos antes, dois oficiais dos bombeiros tinham ido prestar homenagem. Ficou bonito.

Depois de literalmente 11 horas de viagem, consigo um momento a "sós" com o meu avô. Aliás, era esse momento que procurei ter quando marquei uma viagem repentina, custosa e muito cansativa. Era esse momento no qual eu e ele estávamos juntos uma última vez ali na sala. Foi um momento de silêncio, porque as lágrimas já tinham saído todas, horas antes, ainda em Cambridge.

Sexta-feira, 12h, o carro lá fora esperava o meu avô para a sua última viagem. Antes disso, o caixão teria que ser fechado. Fiquei ali a olhar uma última vez o meu avô enquanto que a pesada tampa selava a sua urna funerária. Foi a última vez que o vi na vida. No meio de tanta gente, no meio de tanta tristeza e solidão, carreguei com as minhas mãos, com ajuda dos meus tios, o caixão do meu avô. De um neto para um avô, foi uma honra. Foram meia dúzia de passos até ao carro e bastaram esses passos para sentir que valeu a pena a longa viagem de Cambridge a Aveiro. Faria tudo de novo.

O jardim de pedra lá o esperava silenciosamente. Após mais de 77 anos de vida. Após múltiplas tristezas e alegrias. Após ter visto os seus 5 filhos nascer e 9 netos a brincar. Após muito Benfica e acima de tudo o seu Beira-Mar, iria repousar ali, tranquilo e em paz.

Sexta-feira, 14h, a minha tia Isabel recomenda que a gente se reúna num grande almoço em sua casa. Juntámos mais de 10 pessoas à volta de uma mesa grande e cheia de comer e de beber. Estamos ali mais de 5 horas numa reunião rara. São momentos de alegria e de recordação. No fim brindámos à memória dele.

Faria tudo de novo...

3 Comentarios:

Nês disse...

:) Sei exactamente o que sentes e tiveste mais coragem que eu :) Um sorriso para ti

johnnie walker disse...

:)

Anónimo disse...

foi uma bonita homenagem :(